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O saber escolar e a formação de licenciandos e licenciados: uma reflexão necessária

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  GOEDERT,ROSICLER

DTPEN/UFPR

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RESUMO: O presente trabalho é resultado das reflexões realizadas no Ciclo de Palestras e Debates/97 - Projeto "Integração Licenciando e Licenciado", inserindo-se na área de estudo da "formação profissional", abordando especificamente a discussão em torno do saber escolar. O campo de ação metodológica envolve a formação inicial de acadêmicos do Curso de Licenciatura em Educação Física e a formação continuada de professsores do ensino público de 1ª Grau.

PALAVRAS CHAVES : Educador,Formação, Saber Escolar

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INTRODUÇÃO

O presente texto fundamenta-se na busca da efetivação das diretrizes e metas

traçadas ao PROJETO LICENCIAR-UFPR/97, em que "construir uma identidade aos Cursos de Licenciatura da UFPR....; resgatar a idéia de curso enquanto unidade formadora do licenciado..; integrar as Licenciaturas com os diferentes níveis da educação básica..., onde estão vinculadas as ações do projeto "Integrando Licenciando e Licenciado" que através do Ciclo de Palestras e Debates, proporciona a aproximação dos acadêmicos do cotidiano da escola pública.

Este teve sua origem em 1991, na Escola Municipal Professor Erasmo Piloto, através da Disciplina de Ginástica Escolar B, do Curso de Licenciatura em Educação Física. Estendendo-se ao PROLICEN desde 1994, atualmente é desenvolvido por meio da integração dos conhecimentos tratados nas disciplinas de Metodologia do Ensino da Educação Física, Didática e Ginástica Escolar B, a qual esta última desenvolve em ações conjuntas o projeto Movimentando a Educação Física e o Ensino Básico (LICENCIAR-UFPR/97), através de vivências de atividades pedagógicas.

Os dois projetos citados estão atualmente interligados nos seguintes campo de ação: Escola Cônego Camargo - Ensino de 1º Grau, localizada à Rua Rio Jari, nº 1085- Bairro Alto, atendendo aproximadamente 605 alunos, e a Escola Municipal Profº Erasmo Piloto- Ensino de 1º Grau, localizada à Rua Rio Japurá, nº648 - Bairro Alto, atendendo aproximadamente 900 alunos.

OBJETIVO

Proporcionar aos docentes que atuam no ensino básico e acadêmicos dos Cursos de Licenciaturas, a reflexão coletiva do processo de sua formação acadêmica e da prática cotidiana do professorado, através da realização do Ciclo de Palestras e Debates/97, estabelecendo temas que abordem os aspectos pedagógicos, políticos, sociais, econômicos, entre outros que interferem diretamente nas relações escolares, resultando na possibilidade de aperfeiçoamento contínuo e formação conjunta do saber docente.

 

JUSTIFICATIVA

Compreender a prática docente como histórica e social, portando, "própria de seres humanos concretos, situados em espaço social e tempo determinados"(CALDEIRA, 1995), implica considera-los como resultado de aspectos mais amplos e globalizantes como os processos culturais, econômicos, sociais e políticos.

A formação de Licenciandos e Licenciados, necessita da leitura histórica dos resultados desses processos, o que não significa o não reconhecimento de que os próprios indivíduos contribuem para a formação desses contextos. Portanto, a prática e o saber docente passa por vários entendimentos e por diferentes áreas do conhecimento, que contribuem fornecendo uma compreensão mais "densa" do trabalho docente que desenvolve na sala de aula permitindo ao profissional perceber e interpretar criticamente o contexto escolar e as relações existentes entre os conteúdos, objetivos, encaminhamentos metodológicos, avaliação, etc, aclarando aspectos da vida escolar, possiblitando o desenvolvimento de ações condizentes com a sua realidade de trabalho.

Com o intuíto de contextualizar a vivência didático-pedagógica, no sentido de melhor conhecer os reais objetivos da Educação e da Educação Física Escolar, articulando-se com os propósitos educacionais de melhor formular um quadro da relação teoria e cotidiano, constituído por uma base concreta de princípios filosóficos e metodológicos, promove-se atividades planejadas em temas que resultarão em subsídios para a reestruturação cuuricular nos diferentes níveis de ensino, bem como no assessoramento dos licenciando no sentido de superar as dificuldades relativas à sua formação.

METODOLOGIA

A análise objetiva e crítica de temáticas emergentes é o princípio norteador do encaminamento metolológico desse estudo. O ordenamento das etapas desenvolvidas no Ciclo de Palestras e Debates (anexo 1), deve ser compreendido como um roteiro de questões e reflexões que delemitam esse trabalho.

Trata-se, portanto segundo DAVID(1997) de uma metodologia que busca "ao mesmo tempo compreender a realidade contextualizada historicamente como também produzir ações a serem desencadeadas na prática reflexiva e concreta dos envolvidos no interior da escola em suas ações pedagógicas". Isto significa, sobretudo, que licenciandos e licenciados deverão fazer deduções, confrontar a prática existente com outras práticas sociais, analisar os fenômenos, conceituar e dar significações às ações educativas, emitir opiniões críticas, etc.

Nessa ação metodológica, os conhecimentos teóricos não poderão servir apenas para "explicar uma dada realidade", mas também para se converterem em crítica e em instrumento de uma ação transformadora.

 

DISCUSSÃO

Na tentativa de operar com as categorias da metodologia exposta e possibilitar uma instrumentalização teórica que respondesse às necessidades emergentes dos grupos, delimitou-se as temáticas geradoras, as quais indicaram a problematização do debate e seleção/organização dos conteúdos e referências bibliogáficos a serem tratados a cada ciclo.

Em um primeiro momento buscou-se compreender e discutir "A Educação em tempos de Qualidade Total" que segundo GENNARI (1997) diante da elevação do desemprego e das dificuldades dos setores produtivos melhorarem seu desempenho no âmbito da competição internacional, "o sistema educacional tem sido apontado como o grande responsável pelo agravamento deste e outros problemas sociais". Sem uma investigação profunda dos fatos e de suas causas, o senso comum coloca o sistema escolar no banco dos réus e o condena por não possibilitar a integração de todos os indivíduos na sociedade, deixando assim de contribuir para o seu ordenamento e equilíbrio permanente, enfatiza o autor.

Diante desse quadro, GENNARI nos inquieta levantando as seguintes questões:

 

"-Alguém em sã consciência poderia se opor à idéia de termos um ensino de qualidade? Se , como diz o senso comum, a eleminação das desigualdades e da falta de oportunidade dependem de uma boa educação; por que alguém deveria rejeitar as mudanças que estão sendo propostas no ensino de primeiro e segundo grau?"(pág 01)

Se é verdade que a respostas a estas perguntas é um aparente consenso por parte de todos os setores sociais, outros questionamentos ganham espaço na nessa reflexão: -O que se entende por qualidade total no ensino de 1º e 2º grau ? Quais as metas que ela pretende alcançar? As mudanças nos processos de trabalho estão mesmo empurrando o Estado a elevar o nível de conhecimento e de estudo entre a população trabalhadora?

Com base nas discussões desses questionamentos, nos impulsiona a identificar que o entendimento de temas como: a globalização; a adoção pelas escolas públicas e privadas de métodos empresariais (com enfase na flexibilização e terceriazação) na Qualidade Total; as influências destes fenômenos na sociedade já tronam-se valores presentes na ação do professor. GOEDERT(1997) relata que decorrentes destes valores, contextualiza-se a escola e a identifica como uma instituição que não atende as exigências sociais, a qual utiliza-se de currículos fragmentados, métodos que trabalham os aspectos cognitivos de forma ultrapassada enfatizando a memorização,etc, levando à várias escolas o interesse em atingir-se a "Qualidade Total", por meio da otimização de gasto e tempo. Isto transferido para a sala de aula transforma os alunos (as) em "produtos" extremamente competitivos entre si, onde o critério de seleção e classificação será a nota, dividindo a classe a partir da pontuação em "mais aptos e menos aptos". Se o professor adotar a avaliação baseada apenas no rendimento final, poderá ainda criar e reforçar nos alunos (as) uma mentalidade individualista e eletista, com os próprios alunos(as) passando também a selecionar os seus colegas pelos mesmos critérios de produtividade. No entanto, em algumas faculdades (ou em algumas disciplinas) ainda predomina esta avaliação na formação acadêmica, enfatiza a autora citada acima, "o que dificulta ao profissional adotar novos métodos, mesmo os conhecendo na teoria, pois não saberá como aplicá-los".

Este comportamento incutido inconscientemente nos atos do(a) professor(a) é resultado de uma formação que se limita a formar um transmissor de conhecimento, um profissional que não pesquisa as fontes geradoras deste, não consegue compreender (apreender) o universo social no qual o aluno (a), a escola, e ele mesmo estão inseridos, pois não parte das condições "concretas" para estabelecer suas metas de trabalho, copia métodos de outras realidades sociais, que dificilmente se adequarão á sua escola, o que o levará a "frustração" de sua atuação profissional.

Como decorrência desses fatores constata-se que "temos" uma escola que não prepara para o trabalho e não cumpre o seu papel social .

Percebendo a importância de aprofundarmos nossas reflexões, desenvolvemos o segundo ciclo, em que KUENZER (1997), contribui significativamente na discussão da prática pedagógica contemporanea, onde destaca:

 

"o processo em curso de superação do taylorismo/fordismo pelas novas formas de organização e gestão do sistema produtivo a partir da crescente incorporação de ciência e tecnologia..., vêm causar profundos impactos sobre os processos pedagógicos passando a exigir do homem novos conhecimentos e novas atitudes no exercício de suas múltiplas funções, enquanto ser social, político e produtivo".(pág.05)

 

Portanto, segundo a autora , vai nascendo um novo princípio educativo, "não da cabeça dos educadores, mas na prática social e produtiva com sua novas determinações", em que tornam-se os métodos tradicionais anacrônicos, exigindo processos de aprender que articulem o "mundo da escola ao mundo do trabalho".

Para uma nova concepção de educação , KUENZER destaca três constatações gerais que fundamentam esse "novo princípio" e que vêm orientando a discussão da formação de educadores:

"-o novo princípio educativo exige que o trabalhador/cidadão de novo tipo domine conteúdos básicos da ciência contemporânea que fundamentam os novos processos sociais e produtivos; que tenha novas atitudes e comportamentos perante a sociedade e o trabalho, exigindo-se uma nova ética de responsabilidade, de crítica e de criação, voltada para a preservação da vida, do ambiente, e para a construção da solidariedade, como condições necessárias para a criação de uma sociedade mais humana e mais igualitária;

-o novo princípio educativo exige uma universalização da educação, pelo menos básica, da maioria da população, sem o que as exigências explicitadas no ítem anterior não poderão ocorrer; esta não é uma determinação exclusiva do mundo da produção, o qual, por seu caráter excludente, é cada vez mais seletivo com relação ao emprego; é também, e principalmente, uma determinação da necessidade de formação de uma nova humanidade, capaz de enfrentar com melhores condições de compreensão e crítica a realidade da crescente exclusão e pobreza que caracteriza essa etapa de desenvolvimento;

-o novo princípio educativo exige a ampliação da oferta pública nos demais níveis, na perspectiva do atendimento ao direito universal à educação" (pág.07)

Construir os "processos de aprender" em que articulem "o mundo do trabalho e o mundo da escola" é apontado por alguns atores como "organizar um novo cenário", com mudanças de papéis de "atores" já envolvidos, bem como novos pápeis e a identificação de novos personagens.

O terceiro ciclo é construído a partir de "novos e antigos personagens", em que a relação da Educação com a Comunidade assume um papel prioritário. GENTILE(1997), nos alerta quanto a "uma escola inaminada perante a mudança social é uma escola comprometida com a conservação da ordem, com o mascaramento das condições de miséria e exploração, existentes em nossas sociedades".

A escola pública é o espaço priviligiado da luta pela "democratização do conhecimento, a esfera da sua socialização e produção", reforça o autor, porém não é única. A escola que silencia os conflitos dos movimentos sociais "atravessados de problemas éticos, de medos e esperanças, de utopias inclusas, de lutas inacabadas" nega e negligência vozes na vida social, que sustentam o "mundo do trabalho e o mundo da escola".

GENTILE em seu texto "Ocupar a terra, ocupar as Escolas: ...", nos apresenta dez questões e uma história sobre a educação e os movimentos sociais na virada do século, dentre as quais destacamos a oitava colocação:

 

"Temos que "sujar" a escola de vida social. Sua pretensiosa profilaxia apenas expressa nossa irresponsável miopia perante a injustiça, a discriminação e a violência da exclusão: injustiça, discriminação e violência presentes naqueles que estão nas nossas instituições e naqueles que a sociedade condena ao exílio da escola. Não "sujar" a escola de vida social é condenar-nos, nós mesmos, ao exílio do silêncio. E o exílio do silêncio é a linguagem das sociedades derrotadas e sem esperança"(pág.198,1997).

 

CONCLUSÃO

Este estudo demonstra a necessidade de compreendermos e ligitimarmos a escola como espaço fundamental para a reflexão coletiva da prática cotidiana do professorado. É pois na relação com seus pares, pela confrontação dos saberes produzidos pela experiência do coletivo de quem ensina, que o saber do cotidiano adquire objetividade. Os docentes compartilham saberes com seus colegas, trocam informações com os licenciandos, dividem o seu saber prático teórico conversando sobre seus alunos(as), etc.

O referencial teórico, abordado a partir da problematização dos temas geradores do Ciclo de Palestra e Debates, (anexo1), contribuiu para a reflexão crítica dos licenciandos e licenciados, ampliando a perspectiva de incorporar esses referênciais na realidade social de suas próprias práticas, compreendendo-a como prática social.

Os temas abordados a partir dos aspectos políticos, sociais, pedagógicos e econômicos, foi de grande importância para o reconhecimento dessa direção. Portanto, o conteúdo do saber cotidiano pode diminuir, quando se torma "supérfulo", ou pode aumentar, mediante a apropriação de novos saberes, produzidos a partir de novas experiências sociais e pessoais e dos conhecimentos produzidos pela ciência, pela filosofia e pela arte.

 

 REFERÊNCIAL BIBLIOGRÁFICO

Anais/ Seminário Nacional de Licenciaturas: o desafio da integração entre ensino, pesquisa e extensão, Curitiba, 21 a 23 de setembro /94, Curitiba: UFPR/PROGRAD, 1995.

CALDEIRA, Anna Maria Salgueiro. A apropriação e construção do saber docente e a prática cotidiana. Caderno de Pesquisa, São Paulo , nº 95- pág. 5-12. nov. 1995.

DAVID, Nivaldo A. et al. Capacitação de professores de Educação Física da Rede Municipal de Goiânia: uma experiência a partir do princípio da participação coletiva no trabalho pedagógico. In: Anais do X Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte, Goiânia, Vol.II- pág.825-830, outubro de 1997.

GENNARI, Emílio. A Educação em tempos de Qualidade Total. São Paulo, 1996. (Mimeo).

GENTILI, Pablo. Ocupar a terra, ocupar as escolas: Dez questões e uma história sobr a educação e os movimentos sociais na virada do século. In: SILVA, Luiz Heron da.

Identidade Social e a Construção do Conhecimento. Porto Alegre: Ed.Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre, pág. 192-205/1997.

GOEDERT, Rosicler e VENDRAMIN, Josiane. O Cotidiano Escolar: a aproximação da formação teórica integrando licenciando e licenciado. In: Anais do X Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte; Goiânia, Vol II- pág.919 e 920, outubro de 1997.

KUENZER, Acácia Zeneida. A Formação de Educadores: novos desafios para as Faculdades de Educação. In: DEBATEXTOS, Setor de Educação- UFPR, Curitiba, Caderno 2, 1997. (Mimeo).

PROJETO: "Integrando Licenciando e Licenciado" - Setor de Educação- Coordenação do Curso de Licenciatura em Educação Física, Curitiba: UFPR/PROGRAD, 1997. (Mimeo).

RELATÓRIO GERAL DO PROJETO: "Integrando Licenciando e Licenciado" In: Projeto Licenciar -UFPR/96: Em Busca da Qualidade de Ensino nas Licenciaturas da UFPR, Curitiba: UFPR/PROGRAD, Cadernos de Licenciatura 3, 1997.

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1 Texto enviado à Pró-Reitoria de Graduação da Universidade Federal do Paraná (PROGRAD-UFPR), como parte integrante do Relatório final do Projeto: "Integrando Licenciando e Licenciado", vinculado ao Programa Pró-Licenciatura (LICENCIAR/UFPR-97).

 

2 Profª da Disciplina de Metodologia do Ensino de Educação Física e Prática de Ensino-Estágio Supervisionado do Curso de Licenciatura em Educação Física, no Departamento de Teoria e Prática de Ensino do Setor de Educação da Universidade Fedral do Paraná.

 

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