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O conceito de esporte em Norbert Elias

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R. F. LUCENA

UFES/UNICAMP

Com o objetivo de melhor entender o papel da prática de esportes numa população urbana crescente e cada vez mais diferenciada como a de algumas cidades brasileiras do início do século XX, discutimos o conceito de esporte em Norbert Elias a partir de sua obra "Deporte e ócio en el processo de la civilizacion"(1995), escrita em parceria com Eric Dunning. Vale ressaltar que, para Elias, o esporte, esses "exercícios corporais competitivos em forma altamente reguladas", é entendido como carregado de características miméticas, e "em todas as suas variedades, é sempre uma batalha controlada em um cenário imaginário". O que nos permite relaciona-lo como resultante e resultado do processo que possibilitou o crescimento das cidades e o surgimento de nações Estado industriais e urbano, da crescente diversificação de funções e uma conseqüente variabilidade das relações interpessoais, com o aumento da sensibilidade no que se refere a violência.

 

O conceito de Esporte em Elias.

 

Para tratar o esporte em Elias as primeiras perguntas que devemos fazer são: De que esporte o autor fala? Como ele enxerga o fenômeno desportivo na sociedade ocidental? Ou ainda, que fatores edificam o esporte nas sociedades Estado contemporâneas?

No nosso entender fica claro na obra de Elias que dois sentidos complementares se destacam quando da análise do esporte. Primeiro quando pensa o esporte na sua forma profissional ou de elite, destinado não só aos praticantes mas também a uma assistência cada vez maior. Num segundo momento, num sentido recreativo onde, o esporte, se destacaria dentre um lastro de outra atividades com caráter de lazer.

Considerando o exposto acima é sempre importante ter em mente que em Elias toda a sua análise busca tornar compreensível a idéia geral de mudanças comportamentais e, através da comparação com as estruturas de uma fase anterior, projetar nova luz sobre o que é problemático na fase atual. Quando o problema é o esporte, é imprescindível perceber que, o tratamento do tema passa, antes de mais nada, por alguns aspectos básicos e interrelacionados que vale a pena aqui enumerar: 1) A formação das nações Estados modernas; 2) a democratização funcional - entendida também como uma pressão estrutural cada vez maior vinda de baixo- e; 3) a difusão cada vez maior do desporto através da rede de interdependências. Poderíamos acrescentar ainda a estes aspectos, a autorregulação ou autocontrole, já que para Elias, "no decorrer de um processo civilizador, o mecanismo de autocoação torna-se mais forte que as coações externas."

Portanto, para dar conta do nosso objetivo, que é discutir o conceito de esporte em Norbert Elias tendo como base sua obra "Deporte e ócio en el processo civilizador" escrita em parceria com Eric Dunning, faz-se necessário passar por esses aspectos anotados anteriormente. Para tanto vamos, num primeiro momento, percorrer um de seus artigos denominado "La Génesis del deporte como problema sociológico" onde ele aponta alguns itens característicos do esporte moderno e "Un ensayo sobre el deporte y la violencia". Num segundo momento recorreremos a um artigo de Eric Dunning, grande colaborador principalmente no que tange ao problema do esporte, denominado "La dinamica del desporte moderno", onde julgamos poder ser visualizado aspectos que avançam, a partir da teoria de Elias, em questões referentes a cada vez maior profissionalização dos esportes.

Para entrarmos nos textos supra citados vale a pena anotar aqui uma breve passagem sobre o problema do autocontrole já anunciado anteriormente e que pode ser uma trilha promissora para pensarmos a "gênese" da ação relacionada aos esportes no caminho proposto por Elias. Apenas como caráter de introdução, é importante observar, que esse processo de autocontrole se dá pela transformação , de acordo com as palavras do autor, "da compulsão externa interpessoal em compulsão interna individual"que, podemos afirmar, continua a aumentar nas sociedades hodiernas. Assim,

"os autocontroles individuais autônomos criados dessa maneira na vida social, nesse momento se interpõem mais severamente do que nunca entre os impulsos espontâneos e emocionais por um lado, e os músculos do esqueleto, por outro, impedindo mais eficazmente os primeiros de comandar os segundos( isto é, pô-los em ação) sem a permissão desses mecanismos de controle."

Ora, se argumentarmos no sentido que Elias aponta - do controle mais firme, mais geral e mais uniforme das emoções como característico da mudança civilizadora - podemos pensar então, na prática do esporte como uma ação só possível a partir do exercício dos controles, que são elaborados como uma maneira de expressão necessária, característica das sociedades individualizadas e reguladas, e com o monopólio da força física centralizada, como papel exercido pelo Estado. Uma prática que permite um descontrole controlado.

A partir daqui vejamos o que Elias vai dizer mais especificamente sobre o esporte. Primeiramente em "El deporte como problema sociológico" reporta ao uso da palavra num sentido LATO, que se refere aos jogos e exercícios físicos de todos as sociedades e num sentido RESTRITO, que denota os jogos de competição. Em particular os que se originam na Inglaterra e que passaram posteriormente para outras sociedades. Esse procedimento, segundo o autor, permite apontar enganos no entendimento sobre essa prática, entre elas o da relação dos jogos de competição na Antiguidade Clássica e os desportos atuais. Uma outra diferença, de caráter mais amplo, diz respeito ao primeiro aspecto apontado anteriormente e que se refere ao monopólio e controle institucional da violência física , muito mais fundamental nas sociedades Estado contemporâneas que nas cidades-Estados Gregas. De uma forma mais direta podemos apontar inúmeras pontos a que Elias vai se reportar quando trata da diferença entre os jogos de competição Gregos e os desportos modernos. Entre elas podemos destacar: a ética dos jogadores, as normas pelas quais eram jogadas, as regras das competições, etc.

Porém, o fundamental para a proposição feita por Elias é o entendimento do controle da violência pelo Estado e o autocontrole, nas sociedades altamente diferenciadas como componentes indispensáveis para perceber a estrutura e organização das atividades denominadas esporte. Só comparando esta forma de exercícios corporais competitivos altamente regulados, com outros jogos competitivos em épocas pregressas, poderemos perceber onde Elias quer chegar quando de sua visão sobre o esporte e, quando nos afirma que:

"No se comprederá el fluctuante nível de civilización en las competiciones deportivas en tanto no se lo asocie al menos con el nível general de violencia socialmente permitida y con la correspondiente formación de la conciencia en las sociedades." ( op.cit. p.177)

Assim é que, para Elias a "desportivização" está no mesmo patamar de importância atribuído a "cortinização" dos guerreiros como forma de denotar o sentido civilizador alcançado. Sendo, portanto, um componente a mais nesse processo.

Não obstante Elias ter em conta as mudanças mais gerais ocorridas ao longo do século XIX e também de parte do século XX na "forma e conteúdo" do esporte, há um conceito chave e indispensável para se compreender o caminho de análise percorrido e que compõe um daqueles três itens apontados no início do nosso texto. Este conceito é o de Configuração.Porque, se todo esporte é uma forma organizada de tensão em grupo, só há que se pensar na busca de um equilíbrio de tensões nesse processo configuracional engendrado pelas práticas dos variados esportes.

O esporte como configuração, como equilíbrio de tensão e ou como expressão de um autocontrole, cada vez mais, representa uma resposta não planejada e em vários níveis, nas sociedades de hoje, a um novo equilíbrio entre prazer e restrição e, talvez, uma forma de poder desfrutar de emoções, de prazer pessoal coerente com a "expectativa" nas sociedades Estados dos dias atuais.

Mas como pensar o esporte para além da idéia de afeição, de recreação, que também caracteriza esta prática hoje em dia? Ou por outra, é possível, por esses dados arrolados até aqui, analisar o esporte como profissão, como "seriedade"? Parece que para Elias ainda aqui aqueles três fatores podem nos dar as pistas para entender essa "estrutura" formada por seres humanos interdependentes que chamamos esporte. O texto de Eric Dunnin citado anteriormente talvez nos dê mais alguns elementos, já que tem por objetivo diagnosticar a tendência "em todos os níveis de participação, porem de forma mais patente, no desporto de alto nível, em direção a uma crescente competitividade, seriedade na participação e busca de triunfos."

Dunning parte do pressuposto de que a afeição ao esporte é parte de um processo iniciado numa figuração social em que grupos puderam construir formas de participação desportivas "dirigidas a si mesmos", e que com o nascimento dos estados nacionais logrou-se chegar a formas desportivas mais "dirigidas ao outro". Por ser assim é que os desportistas de mais alto nível, e até aqueles de níveis inferiores que se espelham no esporte profissional, não podem ser independentes e jogar só por diversão, porque se vêem obrigados a uma participação desportiva séria. Esses desportistas invariavelmente representam unidades sociais de grande tamanho como cidades, estados e países, aumentando consideravelmente sua responsabilidade perante promotores e platéia dos espetáculos esportivos e isso porque a relação para com o "outro" se sobrepõe a relação "para si" mais características das atividades de lazer presente no tempo livre.

É incontestável que tem crescido a importância social do esporte. Para Dunning este fato pode ser aferido levando-se em consideração três pontos que vale a pena mencionar:

A) Por ser uma das principais fontes de emoção agradável; B) Por ser um dos principais meios de identificação coletiva e; C) Se constitui em um dos pontos que dão sentido as vidas de muitas pessoas.

Porém, considerando os aspectos colocados por Dunning, em Elias a análise do esporte está associada a busca da EMOÇÃO nas sociedades altamente regulamentadas e onde o controle da violência está vastamente internalizado.

"A beligerância e a agressão encontram expressão socialmente permitida nos jogos esportivos. E elas se manifestam especialmente em participar como espectador ( como por exemplo, em lutas de boxe), na identificação imaginária com um pequeno número de combatentes, a quem uma liberdade moderada e precisamente regulamentada é concebida para liberação dessas emoções. E este viver de emoções assistindo ou mesmo apenas escutando( como, por exemplo, a um comentário na rádio) é um aspecto particularmente característico da sociedade civilizada."

Ora, emana daí inúmeras possibilidades de pensarmos o esporte. Sua importância não só para praticantes mas também para espectadores. Por aí se resgata a razão da análise não apenas pelo consumo, como fator motivante do grande desenvolvimento do esporte hoje, mas também pelas questões das necessidades de viver as emoções. Talvez por aí se entenda melhor porque para Elias é possível dizer que no passado atividades religiosas desempenharam funções análogas as que as atividades esportivas desempenham hoje, inclusive com o seu caráter ritualístico. Também não nos parece de todo satisfatório pensar o esporte apenas como fruto do desenvolvimento industrial, ou por outra, a industrialização por que passaram as nações modernas como "causa" do desenvolvimento dos esportes, dado que são processos que se desenvolvem a partir do que Elias vai denominar de democratização funcional. Entendida aqui como uma pressão que vem de baixo e que, por sua vez, alarga e diferencia as cadeias de interdependências sociais inerentes a demanda do esporte interregional e representativo.

Se somarmos a estes dados arrolados até aqui, a característica "mimética" atribuída ao esporte por Elias, vemos então que este já não é em hipótese alguma, na análise proposta, apenas um outro produto de consumo mas, um elemento necessário - um reduto social - nas sociedades altamente reguladas e com um alto grau de controle multipolar. Onde o indivíduo, seja como jogador ou espectador, pode saltar o muro das emoções, mesmo que de uma forma socialmente limitada e controlada.

Para Elias, o esporte não é apenas mais um produto da sociedade de massas, como alguns apresentam. Ele, com suas características miméticas, é uma necessidade básica das sociedades altamente regulamentadas dado que, sem oportunidades como a prática dos esportes, embora não só ela, em que possam experimentar emoções agradáveis, os membros dessas sociedades pedem correr o risco de ver suas vidas sucumbirem ante uma rotinização avassaladora. Por isso é que para Elias, a natureza mimética de um enfrentamento desportivo "permite as pessoas experimentar com plenitude a emoção de uma luta sem seus perigos e riscos"e muito embora, "o elemento medo continue presente na emoção, diminui em grande medida e com ele se potencia enormemente o prazer da luta."

Portanto, tentar apreender o conceito de esporte em Elias nos parece ser importante porque, além de permitir pensar o objeto(esporte) que se estrutura nas configurações, como resultado de um processo civilizador característico das sociedades Estados ocidentais; permite ainda pensa-lo, a partir de suas características miméticas, como componente explicativo das interrelações humanas.

 

REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO.

 

ELIAS, N. e DUNNING, E. Deporte y ocio en el proceso de la civilizacion. México: FCE,1995.

ELIAS, Norbert O Processo Civilizador. Vol. I, Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 1994.

____________. Introdução a Sociologia. Lisboa: Edições 70.

____________. Os Alemães: A luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed, 1997.

MENNELL, Stpehen. "A globalização da sociedade humana como processo social a muito longo prazo: a teoria de Elias." in FEATHERSTONE, M.( coord.) Cultura Global. Nacionalismo, globalização e modernidade. Petrópolis: Vozes, 1994.

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1  Professor assistente da Ufes e doutorando FEF/UNICAMP

2  Norbert Elias. "Os Alemães." Ver em especial parte I Civilização e Informalização.

3  Norbert Elias. "O Processo Civilizador" Vol 1 p. 245

4  Op. cit. pp245-246.

5  N. Elias. Deporte y ocio en el proceso de la civilizacion. p. 63

6  Op cit. p. 177

7  O conceito de Configuração ou figuração é central para o pensamento de Norbert Elias que busca através dele diluir o constrangimento de se pensar em Indivíduo e Sociedade como se fossem duas entidades antagônicas e diferentes. Para uma maior proximidade com este tema remeto oleitor para a obra de Elias denominada Introdução a sociologia e em especial as paginas 140 a 145.

8  Deporte y ocio en el proceso de la civilizacion. p. 247

9  A esse respeito o leitor poderá encontrar com mais detalhe o entendimento de tempo livre e lazer em Elias nos capítulos I e II iniciais do livro "Deporte y ocio en el processo de la civilizacion" entitulados: "la búsqueda de la emoción en el ocio" e "El ocio en el espectro del tiempo libre", respectivamente.

10  Op.cit. p. 266

11 O Processo civilizador. Vol 1 p. 200

12 Para Elias o termo mimético não se reduz a uma concepção mais culta de imitação. Para ele o que pode se dizer é que alguns elementos entram na experiência da representação fazendo com que os aspectos emocionais da experiência sofram então uma transformação altamente característica. A este respeito vale a pena conferir o item III da introdução de "Deporte Y ocio..." e em particular a nota número 11 a pag. 65.

13  Deporte y ocio en el proceso de la civilizacion. Ver nota 11 na p. 65.

 

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